Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)
A oração do Pai-Nosso é a melhor das orações. Ela foi ensinada por Jesus Cristo aos seus discípulos e hoje para todos nós, seus discípulos, suas discípulas, missionários, missionárias. Ela sempre deve ser recitada em nossas orações, sacramentos, liturgia eucarística, reuniões, celebrações, assembleias. Tertuliano, Escritor cristão dos séculos II e III do Norte da África, foi o primeiro dos Padres da Igreja a interpretar a oração do Pai-Nosso de modo que é preciso perceber a forma com o qual ele ofereceu à comunidade cristã uma visão geral da oração pela sua grandeza e pelo seu projeto de vida que ela contém para todas as pessoas seguidoras de Jesus Cristo, da Igreja e do Reino de Deus.
Uma nova forma de oração
Tertuliano disse que Jesus Cristo, Palavra e Pensamento de Deus (cf. Jo 1,1; Rm 1,4), aludindo aos novos discípulos da nova Lei, deu uma nova forma de oração (cf. Mt 6,5; Lc 11,1). Diante da antiga Lei, Jesus ensinou a eles a oração do Pai-Nosso, pois era preciso recolher vinho novo em odres novos (cf. Mt 9,16) para costurar as coisas sob uma veste nova1. A nova graça de Deus, através da Pessoa de Jesus Cristo, como Palavra de Deus contém três qualidades da oração ensinada para todos nós e para a humanidade por Jesus Cristo: ela é Poderosa porque é inspirada; é revelação porque é Palavra: é reconciliação, porque é Pensamento2.
A oração em João Batista
João Batista ensinou aos seus discípulos a rezar ao Senhor (cfr. Lc 11,1). Diante da solicitação dos discípulos de Jesus, porque João ensinou aos discípulos a forma de rezar, o Senhor também ensinou a eles e a todos os seus discípulos e discipulas, a forma como rezar. A obra de João segundo os evangelhos era a preparação do povo em vista de Jesus Cristo3, porque com a vinda do Messias, o mesmo João disse para eles era necessário que ele diminuísse e o Senhor Jesus crescesse (cfr. Jo 3,30). Toda a obra do precursor e o espírito que o animava, seriam apanhados pelo poder de Jesus Cristo (cfr. Mt 11,13; Lc 16,16)4, ao ensinar para os seus discípulos a forma de rezar e se dirigir a Deus.
Grandes ensinamentos
A oração que o Senhor Jesus ensinou aos seus discípulos e a todos nós é cheia de grandes e luminosos ensinamentos, sabendo que ela não se restringe somente nas palavras, tanto mais dilata-se nos espíritos. A oração do Senhor diz respeito não só o dever de rezar, seja como adoração a Deus, seja como imploração da nossa parte, porque ela abraça praticamente por inteiro todo o ensinamento do Senhor e da disciplina para o seu seguimento, como sendo um breviário, todo o Evangelho5.
Pai que estás nos céus
Nós dizemos Pai-Nosso que estás nos céus (cfr. Mt 6,9). Tertuliano afirmou que nós confessamos Deus e exprimimos a nossa fé n´Ele. De fato, nós rezamos a Deus e lhe suplicamos o aumento da nossa fé, pela qual somente é possível desta forma rezar e se dirigir a Deus. O Evangelista afirmou a quantos acreditaram n´Ele, deu o poder de ser chamados filhos de Deus (cfr. Jo 1,12; 1 Jo 3,1)6.
O preceito do Senhor
O Senhor mesmo chamou Deus Pai por nós (cfr. Mt 5,48; 6,1b), antes Ele nos mandou de não chamar nenhuma pessoa de pai sobre a terra, senão Aquele que temos o Pai nos céus (cfr. Mt 23,9), de modo que rezando desta forma observamos também o preceito do Senhor7.
Bem-aventuradas as pessoas que conhecem o Pai
Tertuliano afirmou que são bem-aventuradas as pessoas que conhecem o Pai. O fato é que chamando-o de Pai nós o confessamos também como Deus. No título de Pai invoca-se ao mesmo tempo também o Filho, porque Ele mesmo disse que Ele e o Pai são uma coisa só, são um (cfr. Jo 10,30). Não é esquecida a Igreja como mãe, porque o Pai e o Filho, chamam a mãe por necessidade, na qual encontra o seu fundamento, o nome mesmo de Pai e de Filho8.
O nome do Pai seja santificado
A oração do Pai-Nosso, ensinada por Jesus, é dada também pela santificação do nome de Deus Pai. Se para Moisés o nome de Deus veio revelado como ‘Eu sou Aquele que sou’ (cfr. Ex 3,13), para nós foi revelado no Filho o nome de Deus Pai (cfr. Mt 11,27). Antes mesmo que viesse o Filho não era ainda conhecido o nome de Pai, porque Ele mesmo disse aos seus discípulos que Ele veio em nome do Pai (cfr. Jo 5,43). Nós encontramos ainda referências ditas pelo Filho em relação ao nome de Deus quando Ele disse que o Pai glorificasse o seu Nome (cfr. Jo 12,28) e mais abertamente afirmou que Ele fez conhecer o nome do Pai aos seres humanos (cfr. Jo 17,6)9.
Santificado pelos seus benefícios
O nome de Deus Pai seja santificado por todo o ser humano em todo o lugar e sempre pela grande lembrança dos seus benefícios. O fato é que Deus santifica todas as suas criaturas, de modo que o seu Nome é sempre santo e já é santificado em si mesmo. A assembleia dos anjos canta de uma forma incessante que Deus é Santo, Santo, Santo (cfr. Is 6,3). A nós também disse Tertuliano, destinados a viver como os anjos, sendo dignos desta graça pelo amor dado às pessoas e a Deus, nós aprendamos já nesta terra a ter a voz celeste de louvor a Deus, que também será o nosso serviço na glória futura.
A santificação do nome de Deus Pai diz respeito também a nós para que vivamos nele como em todas as pessoas que esperam pela graça de Deus, para que rezando por todas as pessoas, também pelos nossos inimigos (cfr. Mt 5,44) obedeçamos também ao preceito da santificação do nome de Deus Pai, de modo que seja compreendida no seu conjunto.
Esta é uma parte do Pai-Nosso interpretada por Tertuliano. É importante ver o amor dele para a melhor das orações ensinada por Jesus Cristo aos seus discípulos e hoje para todos nós. Ela segue todo um projeto de vida para ser seguido, vivido no amor a Deus, ao próximo como a si mesmo neste mundo e um dia na eternidade.