Dom Anuar Battisti
Arcebispo Emérito de Maringá (PR)
No dia de Nossa Senhora de Nazaré, a fé do povo paraense lembra ao Brasil que a vida cristã é caminho
Caros irmãos e irmãs, neste domingo, 11 de outubro, Belém do Pará vive o Círio de Nazaré. Uma multidão sai de casa de madrugada, segura a corda, caminha por horas sob o sol ou a chuva e acompanha a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Quem olha de fora pode perguntar: o que leva tanta gente a esse caminho?
O que leva um povo às ruas: A resposta começa na história. A tradição conta que o caboclo Plácido encontrou uma pequena imagem da Virgem às margens de um igarapé, e o primeiro Círio saiu em 1793. Mais de dois séculos depois, a festa foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 2013. O que sustenta o Círio, porém, não é o título. É a promessa feita na hora da dor, a graça recebida, o filho que se curou, o trabalho que apareceu, a família que se reconciliou.
O povo caminha porque tem algo a agradecer e algo a pedir. Essa é uma fé viva, e a Igreja precisa reconhecê-la com respeito e escutá-la com atenção. Muitas vezes é nela que Deus nos ensina a rezar.
O que Maria faz com quem a procura: Nossa Senhora nunca guarda a devoção para si. Em Caná, o Evangelho – Jo 2,1-11 – mostra Maria atenta à falta de vinho numa festa de casamento. Ela não resolve sozinha. Leva a necessidade a Jesus e diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Essa é a última palavra de Maria registrada nos Evangelhos, e é também a síntese do Círio. Cada passo da romaria só tem sentido se nos aproximar de Jesus e de sua Palavra.
Na pequena Nazaré, o Evangelho – Lc 1,26-38 – a mostra diante do anjo, com uma resposta que poucos de nós conseguimos dar: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”. A obediência de Maria não é servidão. É liberdade de quem sabe em quem confia. Aos pés da cruz, o Evangelho – Jo 19,25-27 – conta que Jesus a entregou ao discípulo como mãe. Desde aquele dia, ela caminha com todos os que creem.
O que fazer quando a procissão termina: Essa é a pergunta mais séria. Termina a procissão, a corda é recolhida, a cidade volta ao ritmo comum. E então? Depois da Páscoa, Maria permaneceu com os apóstolos em oração, como lembra o livro dos Atos – At 1,14 – à espera do Espírito Santo. Ela não procurou lugar de destaque. Ficou onde a comunidade precisava dela.
Há um modo simples de prolongar o Círio: fazer da vida cotidiana uma romaria de serviço. Visitar um doente, procurar quem está só, perdoar quem nos feriu, participar da comunidade, cuidar da família com mais paciência. Foi o que Maria fez logo depois de ouvir o anjo. O Evangelho – Lc 1,39-45 – diz que ela partiu apressadamente para a casa de Isabel. Quem acolhe a Palavra não permanece parado.
Meu lema episcopal diz: “Caminhai no Senhor”. Maria é a companheira mais fiel nesse caminho. Ela não ocupa o lugar de Jesus, mas segura nossa mão para que não desistamos no meio da estrada.
Um convite para hoje: Peço a Nossa Senhora de Nazaré que abençoe os romeiros e promesseiros do Pará, os voluntários e profissionais que servem durante a festa e todos os que, de perto ou de longe, rezam com Belém neste dia. Que ela proteja os enfermos e os que cuidam deles, e que nos ensine a ser um povo que escuta, perdoa e se coloca a caminho.
Que o Senhor, por intercessão de Maria, nos conceda a graça de voltar para casa diferentes do que saímos. E que cada um de nós, onde estiver, seja sinal de esperança.