Forte de Coimbra-MS – Na aurora do dia 28 de dezembro de 1864, quando ainda ressoavam no coração da Cristandade os cânticos do Natal, o Pantanal sul-mato-grossense tornou-se cenário de um dos episódios mais impressionantes da história militar e religiosa do Brasil. Às margens do rio Paraguai, no isolado e estratégico Forte de Coimbra, escreveu-se uma página onde a fé sobrepujou a força das armas.
Naquele tempo, o Império do Brasil encontrava-se às vésperas da mais sangrenta guerra de sua história. O ditador paraguaio Francisco Solano López, cego por ambição e poder, ordenara o avanço de suas tropas sobre o território brasileiro. Mais de três mil soldados marcharam rio acima para subjugar o pequeno Forte de Coimbra, defendido por pouco mais de uma centena de homens, mal armados e quase sem recursos.
Era Natal, nos lembra o memoralista Capitão José Lourenço Parreira, enquanto o mundo cristão celebrava o nascimento do Salvador a guerra rompia violentamente o silêncio das fronteiras. Pais e filhos marchavam uns contra os outros. O contraste entre a luz do presépio e a escuridão das armas tornava-se quase insuportável.
Dentro do Forte encontrava-se uma mulher cuja presença marcaria para sempre a história: Dona Ludovina de Albuquerque Portocarrero, esposa do comandante, Tenente-Coronel Hermenegildo de Albuquerque Portocarrero. Com ela estavam seus oito filhos, inclusive um bebê de apenas um ano e meio e um adolescente de quinze anos, que, tomado pelo ardor do dever, chegaria a empunhar armas em defesa da pátria. Esse jovem tornar-se-ia, mais tarde, o General de Divisão Américo de Albuquerque Portocarrero.
Quando a situação se tornou humanamente insustentável, e o cerco parecia anunciar o fim, deu-se o gesto que mudaria o curso da história. Por ordem de Dona Ludovina, o músico Verdexas tomou nos braços a imagem de Nossa Senhora do Carmo e, elevando-a sobre a muralha mais baixa do Forte, apresentou-a aos céus e aos inimigos.
E então aconteceu o impensável:
Por volta das duas e meia da tarde, os canhões silenciaram. As descargas cessaram. O estampido das armas deu lugar a um silêncio absoluto. Brasileiros e paraguaios, tomados por profundo assombro, interromperam o combate. Muitos testemunharam, com lágrimas nos olhos, o momento em que a Virgem do Carmo parecia impor sua presença soberana sobre o campo de batalha. De ambos os lados, irromperam aclamações à Mãe de Deus.
O Segundo-Tenente João de Oliveira Mello, que comandava a linha mais vulnerável da defesa com apenas oitenta homens diante de centenas de inimigos, jamais teve dúvida: fora a intervenção direta de Nossa Senhora do Carmo que salvara o Forte de Coimbra. Mais tarde, esse oficial alcançaria o posto de General de Divisão, e seu nome seria eternizado na tradição do Exército Brasileiro.
A memória desse prodígio foi preservada por historiadores como o General de Exército Raul Silveira de Mello, cuja obra História do Forte de Coimbra permanece referência incontornável. Também foi perpetuada pelos estudos do historiador Luiz Eduardo Silva Parreira, e pela dedicação de educadores, militares e pesquisadores que, ao longo das décadas, mantiveram viva a chama dessa epopeia.
Não por acaso, a história do Forte de Coimbra passou a ser ensinada como patrimônio moral e espiritual. A Escola Ludovina Portocarrero, guardiã dessa memória, perpetua o episódio por meio de seu hino, composto em 1977, pelo então segundo-sargento José Lourenço Parreira, com música do maestro Geraldo Barbosa de Souza. Nele, canta-se a fé que venceu o medo, a devoção que deteve a guerra, a confiança absoluta na proteção da Mãe de Deus: no qual ecoam versos que sintetizam fé, coragem e identidade nacional:
“Outrora, fizeste, Ludovina,
das muralhas do Forte um altar;
Verdexas eleva a imagem de Coimbra,
a Virgem do Carmo a nos salvar.
As trevas da guerra são vencidas.”
Assim, passados cento e sessenta e um anos, o milagre permanece vivo. Não apenas como relato histórico, mas como testemunho de que, mesmo nos momentos mais sombrios da humanidade, a fé pode erguer-se acima dos canhões e a esperança pode vencer a guerra.
Viva Nossa Senhora do Carmo!
Viva o Forte de Coimbra!