Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Fundamentos para a Coleta Missionária
A prática da coleta, renovada com especial ardor a cada mês de outubro na Igreja Católica, não é um mero expediente administrativo ou financeiro; é, em sua essência, uma ação litúrgica e um gesto profético enraizado no coração da Revelação cristã. Ao depositarmos a nossa oferta no altar durante o Mês Missionário, conectamo-nos a uma tradição viva que remonta às primeiras comunidades apostólicas e aos ensinamentos dos Padres da Igreja. Essa prática encarna a certeza de que a fé em Cristo se valida na capacidade de se fazer comunhão (koinonia) e de socorrer os necessitados (diakonia).
Nas Escrituras, a dimensão da partilha ganha centralidade na práxis de São Paulo. Ao organizar a grande coleta em favor da Igreja mãe de Jerusalém, o Apóstolo dos Gentios formula uma das mais profundas teologias da generosidade. Em sua Segunda Carta aos Coríntios, Paulo ensina que a doação não deve nascer da tristeza ou da obrigação, pois “Deus ama quem dá com alegria” (2 Cor 9,7). Ele apresenta o próprio Mistério Pascal de Cristo como a norma suprema da doação: “Sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8,9). Para a teologia paulina, a coleta é um charis (uma graça), um leitourgia (um serviço sagrado) e uma prova incontestável da autenticidade da fé professada.
Esta intuição bíblica foi herdada e aprofundada pelos Padres da Igreja, que assumiram a dianteira no apelo destemido em favor da caridade e da justiça social. No século II, São Justino Mártir, em sua Primeira Apologia, descreve o dinamismo da celebração eucarística primitiva destacando que os que têm abundância oferecem livremente o que desejam, e o arrecadado é depositado com o bispo para socorrer órfãos, viúvas, enfermos e aqueles que sofrem nas prisões ou na peregrinação. A doação material, portanto, sempre esteve indissociavelmente ligada ao Mistério Eucarístico.
Com a consolidação da patrística nos séculos IV e V, bispos como São João Crisóstomo e São Basílio Magno denunciaram veementemente o acúmulo egoísta e enfatizaram o dever ético da partilha eclesial. Crisóstomo, famoso por suas homilias, afirmava rigorosamente que “não dar aos pobres parte dos próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida”, enquanto São Basílio exortava os fiéis a enxergarem o pão acumulado como o pão do faminto. Na tradição ocidental, São Leão Magno ensinava que a esmola e a solicitude pelos necessitados purificam a alma e conferem eficácia à oração, pois ao servir ao vulnerável, serve-se ao próprio Cristo na pessoa dos seus membros sofrentes.
Ao trazer esse robusto arcabouço bíblico e patrístico para a dinâmica do Mês Missionário de outubro, percebe-se a profunda continuidade do carisma apostólico. A Coleta Mundial das Missões não é apenas um amparo material, mas o exercício
consciente da catolicidade: uma única Igreja que, impulsionada pelo Espírito Santo, faz circular os seus bens espirituais e materiais para que não haja indigentes no Corpo Místico de Cristo. Ao ofertar, o fiel atualiza o gesto das primeiras comunidades, mantendo viva a chama de uma fé que celebra no altar o Pão da Vida e o distribui em forma de dignidade, evangelização e esperança até os confins da terra.
A força dessa tradição bíblica e patrística não permanece circunscrita às naves dos templos nem ao âmbito puramente espiritual; ela encontra uma tradução viva e profunda na história e no tecido social do Brasil. Em um país marcado por históricas desigualdades estruturais, pela exclusão socioeconômica e pela fragilidade das políticas públicas em regiões periféricas, a Igreja Católica firma-se como uma das instituições de maior relevância e incidência na promoção da dignidade humana. A prática da coleta e da partilha comunitária transforma-se, assim, em uma força viva de transformação social, onde o gesto de fé do povo simples converte-se em resposta concreta às dores da nação.
A incidência da Igreja na sociedade brasileira manifesta-se no cotidiano das milhares de creches, asilos, centros de recuperação, hospitais filantrópicos e redes de apoio alimentar mantidos por dioceses, paróquias e ordens religiosas de Norte a Sul do país. Quando a comunidade católica se mobiliza nas coletas promovidas ao longo do ano, ela financia diretamente a presença da Igreja onde o Estado frequentemente não consegue chegar. Nas palafitas, nas favelas dos grandes centros urbanos, nos assentamentos rurais e nos territórios indígenas e quilombolas, a ação eclesial é, muitas vezes, a única garantia de acesso ao pão, à orientação jurídica, à saúde básica e à defesa intransigente dos direitos humanos.
Além do amparo emergencial, a Igreja exerce uma incidência profética na consciência cidadã do povo brasileiro. Ao integrar a fé com a responsabilidade social através das Campanhas da Fraternidade, do Mês Missionário e da atuação de suas pastorais sociais — como a Pastoral da Criança, a Pastoral da Pessoa Idosa e a Pastoral da População em situação de rua —, a comunidade eclesial forma cidadãos conscientes, solidariza a sociedade civil e tensiona as estruturas do poder público em favor dos mais vulneráveis. O ato de ofertar deixa de ser uma mera contribuição privada para se tornar um ato de cidadania evangélica, reafirmando que o amor cristão tem poder de transformar estruturas, gerar políticas de inclusão e edificar uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Sejamos generosos na Coleta Missionária!