Dom Antônio Carlos Altieri
Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS)
Queridos irmãos e irmãs, hoje a Igreja nos reúne não para celebrar a derrota ou o fim, mas para iluminar a nossa dor com a luz da esperança. Celebrar a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos é olhar para a fragilidade da nossa existência humana e, ao mesmo tempo, professar com firmeza a nossa fé na vida eterna. Chorar a ausência daqueles que amamos é profundamente humano e santo; mas chorar como quem tem fé é transformar as nossas lágrimas em oração e confiança na misericórdia de Deus.
Na Primeira Leitura, encontramos o grito de Jó no auge do seu sofrimento. Em meio à dor e ao despojamento, ele profere uma das mais belas declarações de fé de toda a Escritura: “Eu sei que o meu Redentor está vivo […] e na minha própria carne verei a Deus.” Jó não nos promete uma vida sem dores, mas nos ensina que a morte não tem a última palavra. O nosso Redentor vive! Essa fé, gravada não em pedra, mas no mais fundo do nosso coração, nos assegura que a nossa história não termina no pó da terra. A morte não é um abismo de nada, mas o abraço do Pai que nos acolhe.
O Salmo nos pergunta: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem apresentará no seu lugar santo?” E responde: “O que tem as mãos puras e o coração limpo.” Diante da santidade de Deus, reconhecemos que nem sempre caminhamos com o coração perfeitamente puro. Por isso, esta celebração é também um ato de amor e sufrágio: rezamos por todos os nossos irmãos e irmãs falecidos, pedindo que a misericórdia do Senhor purifique suas fraquezas e os conduza à visão da sua face, para que façam parte da geração que busca a face de Deus.
São Paulo nos apresenta a chave teológica da nossa esperança: “Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram.” Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos tornam a viver. A ressurreição de Jesus não é um evento isolado do passado, mas a garantia do nosso próprio futuro. Ele reina para destruir o último inimigo da humanidade: a morte. Quando a dor do luto parecer pesada demais, lembremo-nos de que a morte já foi vencida na cruz e na tumba vazia de Cristo. O Reino definitivo será aquele onde Deus será “tudo em todos”.
No Evangelho, o Senhor nos pede para manter as cinturas cingidas e as lâmpadas acesas. A vida terrena é uma caminhada de vigilância, e a morte é o momento em que o Senhor chega e bate à porta. Mas prestem atenção à grande surpresa deste texto: quando o Senhor encontra os seus servos acordados, Ele mesmo se põe a servi-los à mesa. A morte para o cristão não é um encontro com um juiz implacável, mas a chegada do Senhor amoroso que nos convida para o banquete eterno. Felizes daqueles que, mesmo no sofrimento, mantiveram a fé acesa!
Irmãos, ao rezarmos hoje por nossos entes queridos, confiamos as suas almas às mãos misericordiosas do Pai. Que a certeza da ressurreição conforte os corações enlutados e renove em nós o desejo de viver com fidelidade e amor. Que a nossa vida seja uma lâmpada acesa pela fé, para que, quando chegar a nossa hora, possamos ouvir a voz do Senhor a nos acolher na pátria definitiva.