O joio e o trigo: o discernimento e a tolerância que vem de Deus!

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Dom Antônio Carlos Altieri
Arcebispo Emérito de Passo Fundo (RS)

 

Se no domingo passado a Parábola do Semeador nos levou a refletir sobre a receptividade dos nossos corações aos cuidados de Deus, hoje, ao avançarmos para o XVI Domingo do Tempo Comum (Mt 13,24-43), Jesus nos coloca diante de um mistério ainda mais intrigante e cotidiano: a Parábola do Trigo e do Joio. Para quem vive a rotina de um hospital, essa passagem bíblica ganha contornos de uma realidade impressionante.

Se fecharmos os olhos e pensarmos no “campo” onde o trigo e o joio crescem juntos, não precisamos ir longe. Esse campo é o próprio ambiente hospitalar. Ali, no silêncio das enfermarias e na correria dos prontos-socorros, a vida e a fragilidade humana dividem o mesmo espaço, lado a lado, em uma convivência por vezes desconfortável, mas profundamente reveladora. O joio, na parábola, é aquela semente inimiga plantada na calada da noite. No hospital, o joio não é uma pessoa, mas sim as realidades sombrias que tentam sufocar a esperança: a doença e o sofrimento que aparecem sem pedir licença, muitas vezes alterando os planos de uma vida inteira; o cansaço das várias tentativas sem êxito que ameaça a sensibilidade das equipes de saúde, tentando transformar o cuidado humano em mera tarefa burocrática ou assistencial; a revolta, o medo e a imediatez que sussurram no ouvido dos familiares e pacientes, gerando incompreensão e conflito com aqueles que estão ali para ajudar.

Ao olharmos para esse cenário, a nossa primeira reação humana, imediatista e cheia de boas intenções é a mesma dos servos da parábola: “Senhor, queres que vamos arrancar o joio?”. Diante do sofrimento, queremos respostas rápidas, queremos eliminar a dor imediatamente, extirpar a angústia a todo custo, julgar quem está impaciente e separar, de forma cirúrgica, os “bons” dos “maus”. Mas a resposta do Divino Mestre é um aceno a uma esperança que está para além da compreensão humana: “Não! Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita!”

No ambiente hospitalar, essa ordem de Jesus é uma lição de pura sabedoria clínica e espiritual. O trigo e o joio se parecem muito em sua fase inicial. Na prática médica e humana, a linha que separa a dor do desespero é incrivelmente tênue. Se um enfermeiro ou médico decide “arrancar o joio”, respondendo à rispidez de um familiar com frieza, ou rotulando um paciente difícil como “rebelde”, ele corre o risco de desconsiderar também o trigo. Por trás daquela aparente irritação, existe uma pessoa ferida, apavorada e até mesmo desacreditada, face à perda irreversível de quem ama. Nesta trama, o desafio de fazer-se fiel aos desígnios de Deus é elevado ao extremo, colocando à prova os fundamentos da fé, da esperança e da caridade de qualquer cristão.

A fim de fortalecer mais e mais a dinâmica do Reino, Jesus faz uso das belas imagens do grão de mostarda e do fermento na massa. Na complexidade do contexto hospitalar, onde decisões são tomadas com base em orçamentos, tecnologias, recursos e estatísticas, as ações

de maior valor espiritual e humano costumam vir em segundo plano. Mas para aqueles que cultivam as sementes do Evangelho a dinâmica se inverte: a pressa pelo “giro de leitos” ou a ânsia por dar altas a mais e mais pacientes, visando novas admissões, dão lugar a atitudes que superam a lógica mecanicista presente em muitos profissionais, a considerar o grão de mostarda representado pelo copo de água oferecido com calma ao acompanhante exausto, o fermento no tom de voz suave do médico que dá uma notícia difícil, transformando o desespero de uma família inteira em uma aceitação serena e unida. Em tais atitudes, que apesar de simples carregam em si a riqueza da Caridade, concretiza-se o Reino de Deus, que na contramão do Mundo, impõe-se como remédio de salvação pela esperança renovadora da fé em Deus e na própria humanidade.

Irmãos, sabemos que esses pequenos gestos não anulam a existência da doença ou da morte (o joio do mundo), mas levedam o ambiente nas suas várias camadas, modificam a perspectiva sobre o sofrimento em seus vários sentidos, e fazem com que a dignidade humana cresça e se torne uma árvore frondosa, onde o paciente encontra abrigo e sombra para descansar sua alma cansada. Que embasados pela liturgia deste domingo alcancemos desarmar os nossos corações julgadores e impacientes. Que o Senhor conceda às nossas equipes de saúde e a cada um de nós a graça do discernimento e da tolerância, de modo que saibamos conviver com as nossas próprias limitações e as do próximo, sem perder a fé na colheita final, e que, no momento certo, quando o Divino Médico fizer a colheita, todo o sofrimento seja consumido pelo fogo do seu amor, e tudo o que em nós for trigo brilhe como o sol no Seu Reino eterno. Amém.

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